Alimentar-se, ato obrigatório pra tudo que vive, alguns se alimentam da luz do sol, outros de carne, alguns folhas, outros a sí mesmos. Todos se alimentam, todos consomem. O comer é uma ideia muito interessante, no iching tem muitos hexagramas com esse tema, mas tem um que eu acho bem legal, se não me engano ele se chama “as bordas da boca”, ou alguma coisa assim, ele fala essencialmente sobre morder, abrir a boca de morder. Parece um movimento simples, natural, mas não é tão simples assim, pra se morder algo você tem que ter fome em primeiro lugar, a fome é a própria vontade, uma vontade primordial, vem no código-base do ser-humano, desde sempre sentimos fome, com o tempo vamos criando gostos, não temos fome de tudo, algumas coisas aptecem, outras não, mas na falta qualquer coisa serve. Essa ideia permeia basicamente tudo na vida, pra ter algo, buscar algo, tem que ter fome e não só ela, precisa morder, abrir a boca e morder.
No nosso tempo as coisas estão complicadas nesse sentido, o alimento está cada vez mais dúvidoso, ultraprocessados, sódio, açúcar, comidas rápidas sem alma e sem sabor. Mas as pessoas tem fome delas, e muita, talvez até compulsiva. “Você é oq você come” quem nunca ouviu isso? e é verdade, nos três sentidos, corpo, mente e espirito. O que você consome te constitui, por completo, como um. Por isso a importância de estar sempre atento com o que se consome, sempre!
Pessoalmente tenho períodos peculiares de apetite, essencialmente sempre gostei muito de comer, muito mesmo, como loucamente, carne, ovos, massas, carboidratos e doces, mas as vezes (normalmente na época que antecede meu aniversário) perco bruscamente o apetite, nada parece interessante, começo a comer folhas, frutas e sementes, mas não me sinto frágil ou fraco. Esse movimento anual sempre foi uma constante na minha vida, se repete todo ano e nunca entendi o porque. Em algum momento me apareceu alguma coisa sobre os atos alimentares dos monges, eles basicamente não comem como forma de iluminação (tem até ums monges calcificados em possição de meditação a seculos que a galera fala que ainda está vivo, nesse plano), fiquei bem chocado quando descobri, mas depois entendi, eles não param de comer eles só trocam a fonte, procuram por uma fonte mais etérea, sutil e superior, com o tempo percebi que essa prática é bem comum em muitas religiões, o jejum, o sacrifício do corpo pela glória da alma, realmente lindo.
É isso, que sempre tenhamos fome, fome de boas coisas e que quando elas estiverem sendo indigestas possamos ter outras formas de alimento, um alimento que vem de cima, que não podemos entender exatamente como funciona mas que nutre.
Mas não esqueça, quando sentimos fome temos que morder, morder fortemente, com vontade, como um animal naqueles documentários de vida selvagem que dilaceram loucamente sua presa.
“leite para as crianças, carne para os adultos”
Hebreus 5: 13-14